Filosofia de boteco – um desabafo

Maio 28, 2009

Ontem estava conversando (com alguém muito especial para mim) sobre os diferentes mundos que vivemos. Nós, seres humanos. Pela centésima vez me dei conta que certas coisas que fazem parte do cotidiano de algumas pessoas poderiam ser um verdadeiro óvni na vida de outras. 

Os adventos da tecnologia são exemplo disso. A música. Até mesmo a televisão. A cultura baseada nos meios de comunicação massificados e, ao mesmo tempo, a falta de cultura desses meios – ontem escrevendo “Manifestações e fugas através da música em Cuba: Habana Blues”  me dei conta mais ainda disso. 

Pois bem. Ontem falávamos sobre como pode ser possível pessoas inteligentes, bem empregadas, com nível superior, que têm acesso a jornal, rádio, televisão e internet sem saber e muito menos entender novas tecnologias, novas tendências, formas de comunicar-se. Pessoas que acham que a comunicação interpessoal na World Wide Web é restrita ao e-mail, MSN e Orkut. Ou que cultura é ir no cinema uma vez por mês. Ou que acha que a música brasileira se resume a pop rock e pagode – acreditem-e: os mais novos dessa geração não sabem a diferença entre samba e pagode.

Ou a classe média que, em tempos de Big Brother Brasil, só acessam o G1 para saber os bafos da “casa mais assistida no Brasil” e nos sábados à noite assiste Zorra Total na TV. Sei que em épocas de crise – e não falo do atual ‘boom’ econômico mundial, e sim da crise sempre vivida na América Latina, desde sempre – o entretenimento massificado é mais do que necessário por usar do humor como uma poderosa válvula de escape da situação (relacionar o texto do Aníbal Ford também me fez pensar mais nisso), mas temos que concordar num ponto: os programas da TV brasileira estão cada vez piores. Para os ligados nem precisaria falar: todos sabem como é o Domingão do Faustão, Domingo Legal e diabo-a-quatro. É praticamente uma tortura assistir o Faustão atrapalhado e xingando todo mundo ao vivo. 

Aqui eu não sei se critico as pessoas por não irem atrás de um pouco de cultura fora dos meios massificados, os meios por se basearem em entretenimento de quinta categoria ou a mim mesma por ser crítica demais. São tantas as opções de entretenimento simples e barato que simplesmente não entendo como alguém possa sentar-se no sofá com um balde de pipoca para assistir ao Fausto Silva. 

Sem querer poetizar, sem querer bancar a culta. Nada disso. Sem querer dar uma de Eric Schmidt e mandar desligar os computadores ou sacar a minha carteirinha de nerd. Mas me preocupo com a alienação alheia. Me preocupo porque essa geração é cercada de informação, bombardeada com novidades a cada minuto e só depende de cada pessoa tentar fazer outras coisas do que ficar na inércia – o Brasil ta aí, cheio de praças pra tomar chimarrão e prosear, tocar violão, andar de bicicleta, praticar um esporte ao ar livre. Museus para ver coisas novas-velhas, bibliotecas com acervos enormes gratuitos, centros públicos de inclusão digital para caçar informações. 

Não é a falta de informação e cultura que me preocupam, e sim a falta de interesse em buscá-las e sair da inércia…

 

 


emo?! whatafuck?

Dezembro 11, 2008

Navegando nas notícias, como faço todas as manhãs, deparei-me com a seguinte chamada: “G1 apresenta 15 discos para entender o emo“.

Tudo bem, pensei, vamos ver o que o G1 tem para me dizer. Lendo a matéria, quase tive um surto.

Só faltou os caras citarem CPM22. Obviamente não sabem nada sobre o estilo e muito menos se deram o trabalho de pesquisar sobre o movimento originário da cena de Washington DC lá pelo meio dos anos 80. Não tem a mínima noção de emocore, hardcore e pop-punk. Daqui a pouco até Britney SpearsMadonna viram emos – Britney não cantou “everytime I try to fly I fall without my wings“?

Segundo o G1, o emo foi popularizado por bandas como Fall Out Boy e Nx Zero. Dá vontade de mandar um e-mail desaforado pro editor de música de lá. Depois de críticas ótimas de alguns álbuns, me lançam uma cagada desssas. Claro, além da Nx citaram a DoD para representar a cena nacional – ao menos uma! E óbvio que, na visão deles My Chemical Romance viraram emos comparáveis a grupos como Fugazi e Embrace. Audácia!

Conseguiram alguns pontos lembrando da existência de Sunny Day Real State, The Get Up Kids e Jimmy Eat Word – que, apesar de serem da segunda geração emo, ainda contem a “essência emocore”, digamos assim. Foram pra lista também Rites of Spring e Buzzcocks – que na minha opinião tá mais pra safra do punk 77, mas ainda é tolerável.

Meu conflito: se as bandas “pós-emo”, por assim dizer, como SDRS e compania foram pra lista, onde foram parar as outras da mesma leva? Taking Back Sunday, Dashboard Confessional, Sparta, Saves the DaySilverstein estão aonde, pelo amor de Deus?

Agora verdade seja dita: morte aos desinformados! Onde diabos está Mineral na listagem? Se isso não é emo, meu nome é pafúncia, tenho 69 anos e cabelos verdes.

Não, gente, só porque alguns tem franja e berram quase chorando não quer dizer que são emos. G1! Contrate-me para revisar essas matérias de rock. Isso aí tá uma vergonha…


Slash e Júnior Lima: surpresas

Novembro 26, 2008

Não, gente, calma, eles não vão gravar juntos. São duas notícias – ou críticas pessoais, como preferirem – que quis compartilhar.

novemilanjos_divConfesso estar meio enjoada de tanto ler em sites especializados sobre “a nova banda de Júnior Lima“, a tal Nove Mil Anjos. Nenhum preconceito: só ouvi um som dos caras e, a julgar pelos músicos que a compõem, o resultado deve ter sido, no mínimo, aceitável.

Porém, apesar de o grupo ter um dos melhores baixistas de pop rock da atualidade brasileira, o Champignon (ex-Charlie Brown Junior) e um ótimo guitarrista (Peu, ex-Pitty) , só quem sai na mídia é o Junior, eterno “Sandy-&-Junior” falando do projeto, dizendo que a irmã é fã e yadda yadda yadda. Pô Junior, cansamos de você falando da Sandy, abre espaço pros teus colegas, brother. Agora que não é mais membro da dupla, o cara é só mais um na Nove Mil Anjos. Desencana, rapaz! Deixa o vocalista ser o frontman!fergie1

E, enquanto isso, do outro lado do mundo, meu grande amigo Slash anuncia que até Fergie (sim, a própria, do ‘london london london, wanna go down’) estará no seu próximo álbum. O novo brinquedinho do guitarrista tá quase um “Slash e amigos”, prometendo muitas participações. O lançamento está previsto para 2009 e não tem nome ainda.


assistimos: Vicky Cristina Barcelona

Novembro 17, 2008

vicky1Como eu suspeitava, divertido e com ótima fotografia. Penélope Cruz está impagável em Vicky Cristina Barcelona, interpretando uma artista espanhola Maria Elena, uma mulher desequilibrada que tem sérios problemas em se afastar do ex marido, Juan Antonio (Javier Bardem).

Juan Antonio é o que eu chamaria de clichê do cafajeste romântico. Outro artista, com ares de homem sedutor que não vive sem uma mulher ao lado e que tem ideais amorosos. E, claro, sua vida cruza com as moças do título o filme: Vicky (Rebecca Hal) e Cristina (Scarlett Johansson), duas turistas americanas que vão para Barcelona em férias.vicky2

Acontece tudo e nada ao mesmo tempo. Um delicioso crescimento dos personagens, engraçadíssimos triângulos amorosos – mais para mènage a trois -, passeios lindos por terras espanholas e muitas cenas que são impossíveis de não rir. Como eu disse, Penélope Cruz está ótima em seu papel, muitas vezes falando em sua língua original. É brilhante, dá um ar de comédia ao drama contido de algumas cenas.

Recomendo e recomendo muito!

 

odiabovesteprada2Em tempos: ontem assisti pela milésima vez O Diabo Veste Prada. Adoro a personagem da Meryl Streep (o monstro da moda Miranta Priestly) maltratando a jornalista Andy (Anne Hathaway). Pudera: o filme mistura muitas coisas que eu gosto: moda, revistas e jornalismo, sem falar da comédia e ótima fotografia também – além, é claro, da KT Tunstall cantando na trilha sonora. Eu li o livro também e, posso dizer, um dos poucos que não me desapontou após ler o original. Recomendo, tanto o livro como o filme, mesmo que seja pela décima vez.


Democracia Chinesa: bem vindo à selva?

Novembro 12, 2008

chinese1Certamente se um gunner ler este título vai entender. Mas, como não só de fãs dos Guns n’ Roses vive a blogosfera, aí vai: Chinese Democracy, o novo e mais esperado álbum do ícone do hardrock, tem data de lançamento já certa para dia 25 de novembro. Ontem as faixas foram liberadas oficialmente para a imprensa especializada e é só no que se fala. 

Foram 15 anos de espera desde o álbum The Spaghetti Incident? – último disco do grupo com a formação das antigas, composto apenas por covers.

Como sempre falo: não é segredo pra ninguém que sou – ou era – fã dos caras. Especialmente donewguns Slash e do Duff. A questão é que esse péssimo CD não é Guns n’ Roses. Enquanto a imprensa ouviu as faixas ontem, eu as ouvi assim que vazaram na internet, lá pelo meio do ano.

Mas, já que todos estão botando a boca no trombone, vou botar também.

É decepcionante para os fãs do Guns oitentistas e noventista. A conhecida espontaneidade, energia e urgência abandonaram as faixas. Que Axl adora enfiar efeitos digitais em tudo todos já sabem – ele o fez nos álbuns Use Your Illusion I e II -, mas dessa vez o ruivinho exagerou. Se aproximou do nu-metal, talvez.

É, sem dúvida, um deserto de criatividade daquele cara que um dia escreveu letras e melodias que eram impossíveis não ficar cantando. Pudera: depois de tantas trocas de integrantes a inspiração de Axl ficou em pedaços. Mas não foi de todo ruim. Acho que os fãs não-tão-maníacos(-como-eu) podem acabar gostando da mistureba.

Agora vocês me respondem: por que será que vivo cantarolando músicas do Velvet Revolver, atual banda do Slash, Duff e Matt Sorum? Simples: eles têm a alma do verdadeiro rock.


Entretenimento através de seqüestros

Novembro 10, 2008

(da série “mantendo-me ocupada“, pt. II – crítica pra cadeira de Crítica da Mídia, da faculdade)

 Em seu livro “Por que estudar a mídia”, Roger Silverstone analisa e discute os principais conceitos de estudos da mídia na atualidade. Segundo ele, nós “vivemos num espaço público que as audiências estão em alta conta, a atenção está em alta conta, e nossa mídia oferece infinita e insistente um punho aberto: envolvendo, reivindicando, implorando atenção, comercial, política e esteticamente” (Silverstone, 2002, p. 66).

Quando o autor afirma que histórias precisam de audiências, uso de exemplo o recente seqüestro super divulgado pela mídia. Todo o brasileiro ficou sabendo por televisão, rádio, jornais e internet que um rapaz chamado Lindemberg fez a namorada Eloá de refém em sua própria casa. Era o assunto mais comentado, os cidadãos sentiam-se engajados no drama, já que a imprensa praticamente acompanhava de dentro do apartamento.

Para ilustrar, o programa Mais Você, exibido pela Rede Globo e apresentado pela Ana Maria Braga, foi3382025 uma das fontes de informação intensa sobre o caso. Sem cunho jornalístico e sendo um programa inteiramente voltado para o entretenimento, a apresentadora usa de linguagem popular para tratar seu público, inclusive levando-o a acreditar que o seqüestrador poderia estar assistindo o programa ao vivo. Assim, ela manda mensagens para ele através do programa, pedindo para ele soltar sua refém.

Silverstone explica este “fenômeno” alegando que a comunidade tem um desejo de participação, uma sedução, quer um convite para adentrar e partilhar – embora por pouco tempo – de outro mundo. A mídia encanta e somos encantados.  

Muito embora os outros programas da emissora – a maioria jornalísticos – dêem cobertura total a casos como este, o programa matinal insiste no mesmo fato, fazendo até suítes do material e buscando outros pontos de vista. Entrevistas com pessoas próximas ao protagonista do drama, documentários sobre namoros que não deram certo, enfim, tudo o que possa chamar a tenção do espectador a fim de faze-lo sentir-se engajado no acontecimento – tudo isso no meio receitas culinárias, dicas de beleza e piadas com um fantoche de papagaio.

015728387-ex001A mídia factual, segundo o autor do livro em questão, tem capacidade de nos convencer de que o que ela representa realmente aconteceu. Tanto o noticiário como o documentário levantam pretensões de verdade semelhantes. Então, por exemplo, o Jornal Nacional e o programa de variedades Mais Você teriam a mesma credibilidade para cobrir o caso do seqüestro de Eloá?

A diferença é a entonação dada. Enquanto programas jornalísticos da emissora se baseiam em fatos, o Mais Você busca o lado emocional de seu público. Como lembra Silverstone, a retórica eficaz tem de se basear em algum grau de identificação entre o orador e a audiência: o interlocutor convence apenas enquanto fala a linguagem dela.

O noticiário e o documentário nos fornecem o material do mundo real em formas e estruturas e tons de voz que nos convencem de sua veracidade e de sua honestidade. Em geral nós não temos dificuldade em aceitar o que é dito. Em outras palavras, tanto se Ana Maria Braga ou William Bonner noticiarem ou comentarem um fato, será verdadeiro.

Assim, de certa forma, programas de entretenimento tem credibilidade com seus públicos para apresentar fatos que a mídia tem dado destaque. O mesmo programa Mais Você, da Globo, apresentou em certa segunda-feira (03/11) a cobertura completa dos jogos esportivos ocorridos no final de semana e, após o segundo turno das eleições, dia 27/10, a apresentadora comentou, em tom descontraído, como foram os votos em todos os estados brasileiros. São fatos. Apresentados jornalisticamente ou não, são verdades que chegam aos espectadores.

Porém, segundo Silverstone, temos de reconhecer que os discursos do mundo são múltiplos, tanto os populares como os da elite. São instáveis. A mídia requer sua própria poética. Todas as mídias exigem análise e precisamos saber como operam. Devemos fazê-lo sem cair na armadilha dos formalismos que definiram a poética como um empreendimento da teoria literária.

O público segue uma história porque vive no tempo e a mídia também só existe no tempo. O calendário anual de eventos, o tempo da agenda semanal e diária, as narrativas de noticiários e novelas, etc. O autor cita, em seu livro, Ricoeur: “o tempo se torna humano na medida em que é articulado por um modo narrativo, e a narrativa alcança todo seu significado quando se torna uma condição da existência temporal”.

O estudo da mídia implica, segundo Silverstone, em “investigar psicologia social e a sociologia da experiência visual e da experiência da visão, que não são a mesma coisa”. Os espectadores, através de sua aceitação – ou não – dos produtor midiáticos, ajudam a moldá-la.

“O que fazemos com a mídia?” é uma pergunta recorrente. Para responde-la, precisamos entender os mecanismos, as dimensões sociais e culturais da mediação, aspectos de experiência do ambiente midiáticos. Nessas experiências há espaço para todos os tipos de públicos e linguagens, desde que sejam fatos que envolvam o espectador.


ooops! I’m virgin again – Britney: Circus

Novembro 2, 2008

Juro que isso foi a primeira coisa que me veio à mente quando vi a capa do novo CD, Circus, da escandalosa Britney Spears. Aparentemente a cantora, prestes a completar 27 anos, tenta resgatar um pouco da essência da capa de Baby One More Time ou coisa do gênero – mas somente na capa!

Circus é o oitavo álbum de estúdio de Britney – contando com os greatest hits e reedições. Será lançado no dia 2 de dezembro, aniversário da cantora – egocentrismo pouco é bobagem.

Apenas um single foi lançado: Womanizer. É mais uma daquelas músicas que grudam na cabeça. (não me entendam mal: eu, como musicista, entendo a preciosidade de um trabalho que seja fácil de lembrar, mas é necessário ter cuidado) É meio exagerado, em minha singela opinião. Foi lançado também o clipe, que teria um enredo interessante não fosse o deslize de colocar a musa cantando nua em uma sauna: quebra total de sentido. Uma ressalva: Britney ficou muito bem ruiva e tatuada, dando ares de roqueira.

Em tempos que Brit negocia sua segunda aparição nas telonas interpretando ela mesma, dessa vez uma autobiografia sobre “seus tempos depressivos” acho de pouca credibilidade o nome do álbum com sua capa e, muito menos, com a linha que a cantora continua levando em suas letras, ritmos e danças sensuais.