Entretenimento através de seqüestros

(da série “mantendo-me ocupada“, pt. II – crítica pra cadeira de Crítica da Mídia, da faculdade)

 Em seu livro “Por que estudar a mídia”, Roger Silverstone analisa e discute os principais conceitos de estudos da mídia na atualidade. Segundo ele, nós “vivemos num espaço público que as audiências estão em alta conta, a atenção está em alta conta, e nossa mídia oferece infinita e insistente um punho aberto: envolvendo, reivindicando, implorando atenção, comercial, política e esteticamente” (Silverstone, 2002, p. 66).

Quando o autor afirma que histórias precisam de audiências, uso de exemplo o recente seqüestro super divulgado pela mídia. Todo o brasileiro ficou sabendo por televisão, rádio, jornais e internet que um rapaz chamado Lindemberg fez a namorada Eloá de refém em sua própria casa. Era o assunto mais comentado, os cidadãos sentiam-se engajados no drama, já que a imprensa praticamente acompanhava de dentro do apartamento.

Para ilustrar, o programa Mais Você, exibido pela Rede Globo e apresentado pela Ana Maria Braga, foi3382025 uma das fontes de informação intensa sobre o caso. Sem cunho jornalístico e sendo um programa inteiramente voltado para o entretenimento, a apresentadora usa de linguagem popular para tratar seu público, inclusive levando-o a acreditar que o seqüestrador poderia estar assistindo o programa ao vivo. Assim, ela manda mensagens para ele através do programa, pedindo para ele soltar sua refém.

Silverstone explica este “fenômeno” alegando que a comunidade tem um desejo de participação, uma sedução, quer um convite para adentrar e partilhar – embora por pouco tempo – de outro mundo. A mídia encanta e somos encantados.  

Muito embora os outros programas da emissora – a maioria jornalísticos – dêem cobertura total a casos como este, o programa matinal insiste no mesmo fato, fazendo até suítes do material e buscando outros pontos de vista. Entrevistas com pessoas próximas ao protagonista do drama, documentários sobre namoros que não deram certo, enfim, tudo o que possa chamar a tenção do espectador a fim de faze-lo sentir-se engajado no acontecimento – tudo isso no meio receitas culinárias, dicas de beleza e piadas com um fantoche de papagaio.

015728387-ex001A mídia factual, segundo o autor do livro em questão, tem capacidade de nos convencer de que o que ela representa realmente aconteceu. Tanto o noticiário como o documentário levantam pretensões de verdade semelhantes. Então, por exemplo, o Jornal Nacional e o programa de variedades Mais Você teriam a mesma credibilidade para cobrir o caso do seqüestro de Eloá?

A diferença é a entonação dada. Enquanto programas jornalísticos da emissora se baseiam em fatos, o Mais Você busca o lado emocional de seu público. Como lembra Silverstone, a retórica eficaz tem de se basear em algum grau de identificação entre o orador e a audiência: o interlocutor convence apenas enquanto fala a linguagem dela.

O noticiário e o documentário nos fornecem o material do mundo real em formas e estruturas e tons de voz que nos convencem de sua veracidade e de sua honestidade. Em geral nós não temos dificuldade em aceitar o que é dito. Em outras palavras, tanto se Ana Maria Braga ou William Bonner noticiarem ou comentarem um fato, será verdadeiro.

Assim, de certa forma, programas de entretenimento tem credibilidade com seus públicos para apresentar fatos que a mídia tem dado destaque. O mesmo programa Mais Você, da Globo, apresentou em certa segunda-feira (03/11) a cobertura completa dos jogos esportivos ocorridos no final de semana e, após o segundo turno das eleições, dia 27/10, a apresentadora comentou, em tom descontraído, como foram os votos em todos os estados brasileiros. São fatos. Apresentados jornalisticamente ou não, são verdades que chegam aos espectadores.

Porém, segundo Silverstone, temos de reconhecer que os discursos do mundo são múltiplos, tanto os populares como os da elite. São instáveis. A mídia requer sua própria poética. Todas as mídias exigem análise e precisamos saber como operam. Devemos fazê-lo sem cair na armadilha dos formalismos que definiram a poética como um empreendimento da teoria literária.

O público segue uma história porque vive no tempo e a mídia também só existe no tempo. O calendário anual de eventos, o tempo da agenda semanal e diária, as narrativas de noticiários e novelas, etc. O autor cita, em seu livro, Ricoeur: “o tempo se torna humano na medida em que é articulado por um modo narrativo, e a narrativa alcança todo seu significado quando se torna uma condição da existência temporal”.

O estudo da mídia implica, segundo Silverstone, em “investigar psicologia social e a sociologia da experiência visual e da experiência da visão, que não são a mesma coisa”. Os espectadores, através de sua aceitação – ou não – dos produtor midiáticos, ajudam a moldá-la.

“O que fazemos com a mídia?” é uma pergunta recorrente. Para responde-la, precisamos entender os mecanismos, as dimensões sociais e culturais da mediação, aspectos de experiência do ambiente midiáticos. Nessas experiências há espaço para todos os tipos de públicos e linguagens, desde que sejam fatos que envolvam o espectador.

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~ por Isadora Muller em novembro 10, 2008.

Uma resposta to “Entretenimento através de seqüestros”

  1. Isso tudo é preguiça de postar, xu? Arrasou no ctrl c + ctrl v. E, não, eu não li. Fiquei com preguiça (y)

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