Crônica de rodoviária…

…Porque pra mim é impossível ficar 40 minutos em um trem de volta da capital e não pensar em “coisas da vida”

meus 22 anos em diálogos

– nhééé – disse uma criaturinha de 50cm de altura, cabelos pretos e olhos azuis.

– “paiaço”, “oiando”, “popósito” – disse a criaturinha, já loira, ao palhaço de brinquedo, mesmo sem entender o que a palavra “propósito” significava.

– papai, quero um tricículo – e assim vieram os roxos pelo corpo, tombos e choros.

– mãe quero ir na pracinha! – mais tombos.

– por que vamos nos mudar? – e apareceu uma casa com pátio e, adivinhem?, mais tombos e roxos.

– mas eu não quero escrever! – êeia ironia do destino…

– não quero mais fazer judô… – mas não adiantou: os roxos e tombos continuaram de qualquer jeito.

– prima, passa com o tricículo nos pés da vó! – e não é que ela fez e isso nos rendeu uns bons gritos da coroa?

– ‘dream of…’ mãããe, o que é CALIFORNICATION?  – e: “quieta Isadora, não sai repetindo isso por aí!”

– pai eu quero um violão – e os pobres vizinhos nunca mais tiveram paz.

– que banda é essa chamada KISS? Kiss não é beijo? – bem na época em que a banda, que uns anos depois a fez tocar guitarra, voltou ao país com suas caras pintadas.

– como se faz um acorde com quinta? – e foi só o que ela usou quando conheceu Ramones.

– quero ir pra casa olhar televisão – anos mais tarde ela não assistiria mais.

– ‘oh oh sweet child o mine’ – e os solos desafinados na primeira guitarra tirou o pouquinho de paz que os vizinhos ainda tinham. depois vieram teclado, baixo, bateria e qualquer coisa que faça barulho.

– eu odeio química! – e foi sua melhor nota no vestibular, anos mais tarde.

– poxa mas foram só 5 doses… coooofff… – e lá se foi (e voltou, óbvio!) o primeiro porre – que só desapareceram cinco anos depois.

– tá, mãe, não vou fazer música então, vou fazer jornalismo porque amo escrever – e assim veio a assessoria de comunicação para alguém que só queria escrever em jornal…

– ‘they say: this is the city of angels – all i see is their wings’ – e mais vários outros backing vocals desafinados e berrados por 3 anos

– uau, minha banda tá crescendo, vai fazer sucesso! – e, alguns meses depois:

– tchau guitarra, tchau palcos. cansei dessa vida.

– eu te amo – e a vida fez sentido.

– eu quero ficar minha vida toda assim. – finalmente disse tchau a inconstância, a incecisão e contradições… graças a deus a fase de aborrecer passou. agora ela é uma jovem adulta, decidida e feliz – bem feliz.

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~ por Isadora Muller em abril 15, 2009.

2 Respostas to “Crônica de rodoviária…”

  1. Amaaay a cronologia (?), mas confesso que só fui entender sobre a vida de quem se tratava, quando algumas passagens começaram a fazer sentido.

    Pois, comoassim: criaturinha de 50cm de altura, CABELOS PRETOS e olhos azuis. (a loirice só veio depois???)o.O

  2. Liiiiiiiiinda, arrasaaaaaaaando como sempre. Adoraayy a tua autoanálise.

    Entristeceu-me a parte do abandono dos palcos. Te conheci assim e achava maaaraa as tuas performances. Mas a vida é assim, nada melhor do que ser feliz e fazer o que gostamos de verdade.

    Torço sempree por ti… tu é O CARA em tudo que se mete a fazer. Minha ídala! Saudade de ti!

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