Filosofia de boteco – um desabafo

Ontem estava conversando (com alguém muito especial para mim) sobre os diferentes mundos que vivemos. Nós, seres humanos. Pela centésima vez me dei conta que certas coisas que fazem parte do cotidiano de algumas pessoas poderiam ser um verdadeiro óvni na vida de outras. 

Os adventos da tecnologia são exemplo disso. A música. Até mesmo a televisão. A cultura baseada nos meios de comunicação massificados e, ao mesmo tempo, a falta de cultura desses meios – ontem escrevendo “Manifestações e fugas através da música em Cuba: Habana Blues”  me dei conta mais ainda disso. 

Pois bem. Ontem falávamos sobre como pode ser possível pessoas inteligentes, bem empregadas, com nível superior, que têm acesso a jornal, rádio, televisão e internet sem saber e muito menos entender novas tecnologias, novas tendências, formas de comunicar-se. Pessoas que acham que a comunicação interpessoal na World Wide Web é restrita ao e-mail, MSN e Orkut. Ou que cultura é ir no cinema uma vez por mês. Ou que acha que a música brasileira se resume a pop rock e pagode – acreditem-e: os mais novos dessa geração não sabem a diferença entre samba e pagode.

Ou a classe média que, em tempos de Big Brother Brasil, só acessam o G1 para saber os bafos da “casa mais assistida no Brasil” e nos sábados à noite assiste Zorra Total na TV. Sei que em épocas de crise – e não falo do atual ‘boom’ econômico mundial, e sim da crise sempre vivida na América Latina, desde sempre – o entretenimento massificado é mais do que necessário por usar do humor como uma poderosa válvula de escape da situação (relacionar o texto do Aníbal Ford também me fez pensar mais nisso), mas temos que concordar num ponto: os programas da TV brasileira estão cada vez piores. Para os ligados nem precisaria falar: todos sabem como é o Domingão do Faustão, Domingo Legal e diabo-a-quatro. É praticamente uma tortura assistir o Faustão atrapalhado e xingando todo mundo ao vivo. 

Aqui eu não sei se critico as pessoas por não irem atrás de um pouco de cultura fora dos meios massificados, os meios por se basearem em entretenimento de quinta categoria ou a mim mesma por ser crítica demais. São tantas as opções de entretenimento simples e barato que simplesmente não entendo como alguém possa sentar-se no sofá com um balde de pipoca para assistir ao Fausto Silva. 

Sem querer poetizar, sem querer bancar a culta. Nada disso. Sem querer dar uma de Eric Schmidt e mandar desligar os computadores ou sacar a minha carteirinha de nerd. Mas me preocupo com a alienação alheia. Me preocupo porque essa geração é cercada de informação, bombardeada com novidades a cada minuto e só depende de cada pessoa tentar fazer outras coisas do que ficar na inércia – o Brasil ta aí, cheio de praças pra tomar chimarrão e prosear, tocar violão, andar de bicicleta, praticar um esporte ao ar livre. Museus para ver coisas novas-velhas, bibliotecas com acervos enormes gratuitos, centros públicos de inclusão digital para caçar informações. 

Não é a falta de informação e cultura que me preocupam, e sim a falta de interesse em buscá-las e sair da inércia…

 

 

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~ por Isadora Muller em maio 28, 2009.

5 Respostas to “Filosofia de boteco – um desabafo”

  1. Lógico que muitas pessoas estão nisso por inércia… mas acredito que seja muito possível que pessoas façam isso por gosto. Por preferir ver zorra total a aprender um instrumento/ler algo interessante.

    Com certeza é muito mais cômodo – sendo um pai de uma família com três filhos que ganha 2 salários por mês…

  2. Primeiramente preciso elogiar o belo texto. Sem essa de puxasaquismo. Puro e simples reconhecimento, pois além de bem escrito, tem argumentos, fundamento e o principal: atualidade.

    Esse assunto é fato! Não precisa de estudos para perceber, mas talvez para entender. Pessoas que sentam ao seu lado, em uma mesma baia de trabalho, que respira o mesmo ar que você, que tem as mesmas oportunidades que você e que está ali pela mesma razão que você, pode simplesmente ser muito diferente de você.

    Informação é acessível, agora a busca por ela é atitude. Ainda ontem me surpreendi quando alguém (da mesma geração do que eu – nos auges dos meus 20 e poucos anos) me perguntou o que era “um twitter” e pra que servia, já que ouviu falar que Barak Obama tinha um. Ao final da minha resposta eu escuto:

    “que coisa louca, neh?” o.O

    Pois é… esse mundo é mesmo louco e estou longe de entendê-lo (La La La La La)

  3. Nossa! Já acabei um namoro por me irritar com isso! Odeio gente bitolada e ignorante. A internet e até a TV podem ser fontes riquíssimas, sim! Mas é preciso ter um bom filtro e um bom background pra saber escolher com bom gosto.

  4. Costumo dizer que já desisti de comentar essas coisas num país em que as pessoas gastam 500 pilas num celular novo mas não botam 15 pilas num livro…

    Concordo com o Penga quando diz que pode existir, sim, gosto por essas coisas… Mas em quase todas as situações isso acontece porque a pessoa com esse gosto não se deu ao luxo de acessar (e tentar compreender) a cultura que tá fora da TV.

  5. Putz, muito bom teu texto.

    A internet acaba sendo dominada pelos sites donos dos veículos: Clicrbs, g1 etc. O yahoo, por exemplo, compra muita matéria de agência.

    Mas ainda tenho esperança. Bem ou mal, os blogs e sites alternativos estão aí. Existe um contraponto. Há o risco de que alguém os acesse.

    E tudo depende da forma como se usa tais ferramentas. O Msn pode servir meramente para fofocas, paqueras ou pode também mudar o mundo. Depende da cabeça de quem usa.

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